Manifesto da Coluna Prestes. Íntegra. Porto Nacional (1925)


19/10/1925


Durante cerca de dois anos, a coluna Prestes, comandada por Miguel Costa e Luiz Carlos Prestes, composta da junção das tropas que se sublevaram em São Paulo e no Rio Grande do Sul, em julho de 1924, percorreu cerca de 25 mil quilômetros no interior do Brasil, pregando o fim da República Velha, a modernização do país e a realização de reformas sociais.

Apesar do grande número de soldados enviados contra ela e das alianças feitas entre as autoridades e os chefes locais para tentar esmagar a coluna, o movimento não foi sufocado - e o nome de Prestes ganhou projeção nacional.

No início de 1827, depois de cruzar onze estados, os integrantes da marcha exilaram-se na Bolívia. O manifesto que se segue, divulgado em Porto Nacional, hoje estado de Tocantins, em 19 de outubro de 1925, expõe os objetivos da coluna.

“Concidadãos:

Depois de 15 meses de luta encarniçada — marcados, dia a dia, por todas as angústias que ensombram o cenário triste de uma guerra civil —, temos hoje, ao chegar ao coração do Brasil, às margens do portentoso Tocantins, o feliz ensejo de, mais uma vez, reafirmar a nossa Pátria que a Cruzada patriótica, iniciada ao 5 de julho, na Capital gloriosa de São Paulo e engrossada, mais tarde, pelos bravos filhos da terra gaúcha, ainda não expirou e nem expirará, esmagada pelas baionetas da tirania.

Apesar dessa longa peregrinação de sacrifícios, anima-nos ainda, a mesma fé inabalável dos primeiros dias de jornada, alicerçada na certeza de que a maioria do povo brasileiro, comungando conosco os ideais da Revolução, anseia por que o Brasil se reintegre nos princípios liberais, consagrados pela nossa Constituição — hoje espezinhada por um sindicato de políticos sem escrúpulos, que se apoderaram dos destinos do País, para malbaratar a sua fortuna, ensangüentar o seu território e vilipendiar o melhor de suas tradições.

E o povo pode ficar certo de que os soldados revolucionários não enrolarão a bandeira da Liberdade enquanto se não modificar esse ambiente de despotismo e intolerância que asfixia, num delírio de opressão, os melhores anseios da consciência nacional!

Povo Brasileiro!

Bem sabemos que o País sofre e mais do que o País sofre o povo com o cortejo de violências que fatalmente acompanha a guerra.

É mister, porém que a todo transe, se reintegre o Brasil na finalidade de seus destinos — ainda que novos mártires tenham de juntar o seu sangue ao dos que já souberam dar a vida pela liberdade de sua pátria.

Recuar, neste momento, seria abjurar o ideal por que tantos companheiros queridos fizeram um supremo sacrifício e após essa abjuração, entregar, talvez, a vida e a liberdade de todos ao despotismo absoluto dos que nenhuma honra têm feito ao cristianismo da cultura brasileira e às tradições de generosidade de nossa raça.

Ninguém veja, entretanto, nisso um desejo de fazer a guerra por um capricho de intransigência ou de ambição.

Pelo contrário, queremos a paz e não é senão por ela que, há mais de 15 meses, nos batemos.

Queremos, porém, uma paz sem opróbrios, cimentada na justiça — que seja, em suma, capaz de restituir ao País a tranqüilidade de que tanto necessita.

Repelimos, sim, a paz sombria e trágica que encobre o vilipêndio das senzalas. A esta — se a fatalidade do destino no-la tiver de apresentar —, como um último trago de fel a sorver, preferiremos, sem indecisões, a suprema angústia do esmagamento.

Porto Nacional, 19 de outubro de 1925.

General Miguel Costa — Coronel Luís Carlos Prestes — Coronel Juarez Távora

  revolucao30

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