Da série "nunca antes": Lula impõe seu ministério aos aliados


09.03.2007


Coluna do iG
Por Ricardo Amaral (*interino)
O presidente Luliz Inácio Lula da Silva está a ponto de concluir uma proeza política. Na próxima semana, ele vai anunciar um ministério para o segundo mandato com a "cara do chefe" e o mínimo indispensável de concessões aos partidos da base aliada. Digam o que disserem, não é a nossa tradição.

Em sua monumental reportagem sobre a ditadura militar no Brasil, o jornalista Elio Gaspari anota que o general Ernesto Geisel analisou 124 nomes em 67 dias para montar sua equipe. Acabou tendo de nomear dois ministros que não queria e dois que sequer conhecia, tendo de deixar ao relento um companheiro de armas que ele tentou, sem sucesso, encaixar em três pastas diferentes.

Levando-se em conta que em 1973 a base política da ditadura resumia-se ao alto comando das Forças Armadas e aos capatazes da Arena, nessa ordem, é surpreendente que Lula consiga impor seus próprios critérios a uma coalizão de 11 partidos políticos, um dos quais, o PT, é uma hidra de sete tendências.

Lula espancou as pretensões do PT de ganhar mais espaço. De quebra, afastará o partido e suas disputas internas da coordenação política, deslocando Walfrido Mares Guia para o lugar de Tarso Genro. De petistas no Planalto, bastam o próprio Lula, Dilma Roussef e Luiz Dulci, sem projeto eleitoral.

O PMDB, apesar do apetite da bancada da Câmara, deve ficar só com quatro ministros, um dos quais, José Gomes Temporão, da Saúde, indicado pelo próprio Lula e apenas apadrinhado a posteriori pelo governador Sergio Cabral.

Os demais partidos mantêm seu espaço, com deslocamentos pontuais. Ao que tudo indica, o presidente só não está conseguindo impor sua escolha pessoal ao peso leve PDT, que ganhará a Previdência mas não para o deputado Miro Teixeira, como Lula gostaria. Exceção para confirmar a regra.

O anúnco da equipe confirmará também que Lula tomou gosto pelos "técnicos". Anda dizendo que eles não têm a habilidade dos políticos para enrolar o presidente da República. É uma conclusão ditada pelo aprendizado empírico, como quase tudo na trajetória política do ex-metalúrgico.

Em abril do ano passado, seis secretários-executivos foram promovidos ao lugar de ministros que saíram para disputar eleições. Dos seis políticos que saíram, só um, o senador Alfredo Nascimento(PR-AM) terá a cadeira de volta, assim mesmo porque esse era o contrato desde o começo.

Também permanecem os "especialistas" Gilberto Gil, Marina Silva, provavelmente Luiz Furlan e, se o presidente resistir mesmo às pressões, Luiz Carlos Guedes, da Agricultura. Somam-se ao trio econômico Guido Mantega, Paulo Bernardo e Henrique Meirelles, todos firmes nos postos.

Como diria Lula sobre seu próprio desempenho, nunca antes nesse país um presidente da República chegou tão perto de nomear um ministério na base do "quem tem a caneta sou eu". A caneta cheia de tinta e uma oposição ainda desnorteada pelo resultado das últimas eleições, acrescente-se.

* Ricardo Amaral é repórter da Agência Reuters em Brasília

02.03.2007
Caros amigos e leitores. Vou tirar alguns dias de férias, para recarregar as baterias. Foi um ano duro e estou cansadíssimo. No meu lugar, ficará com vocês o jornalista Ricardo Amaral, atualmente trabalhando na agência Reuters. Amaral, um mineiro que tem mais de 20 anos de Brasília nas costas, é um repórter muito bem informado e um analista político de primeira linha. É tão bom que, no serpentário da capital federal, raramente come gato por lebre. E não perde o bom humor.

Desfrutem
Franklin Martins



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