Lula espera um quase milagre: o PMDB com comando


05.03.2007


Coluna do iG
Por Ricardo Amaral (*interino)
A convenção do PMDB de domingo caminha para ser mais um jogo de time grande em campo de várzea. Começou com provocações, passou para a catimba na formação de chapas, haverá troca de pontapés e no final as equipes podem deixar o campo jurando acertar as contas no próximo confronto.

O PMDB tem funcionado menos como partido do país e mais como uma turbulenta fraternidade eleitoral. São os irmãos Karamazov da política brasileira, enredados por laços de sangue numa trama de ciúmes, traição, disputa por herança, vingança crime e passionalismo. Uma grande e barulhenta família.

Como sonhar não paga imposto (ainda), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou uma expectativa muito alta para a convenção de domingo. Além de torcer por Nelson Jobim, Lula espera que o vencedor – mesmo que seja Michel Temer, como ele admite – entregue um partido unido à coligação governista.

Impossível o desejo de Lula não é, mas vai dar muito trabalho ao gênio. Não há ministério que chegue para acomodar todas as correntes e lideranças regionais do PMDB. E se houvesse, seria apenas mais munição para a luta interna.

Mas há um dado que autoriza o presidente a sonhar. A disputa interna no PMDB não é mais entre os que apóiam o governo e os que preferem a oposição, como vem ocorrendo desde falência da Aliança Democrática no governo José Sarney.

Temer e Jobim precisam da vitória para mostrar ao país quem pode melhor servir ao governo, como aliado no Congresso, e fazer por merecer uma fatia da Esplanada dos Ministérios.

O resultado da convenção pode desvendar um dos segredos de Fátima da política brasileira: onde está a maioria, afinal, no PMDB? Lula reza para que essa maioria não apenas se revele, mas exerça de fato o comando do partido.

Para satisfazer o desejo de Lula o PMDB teria de passar por uma transmutação que o deixaria mais parecido com o PT em termos de organização interna. No partido de Lula, o campo majoritário manda (e como!), mas legitima-se por compartilhar espaços e um projeto de poder com as correntes, digamos, mais à esquerda.

Um PMDB organizado à maneira petista teria um presidente com autoridade, maioria na executiva e disciplina no Congresso. Dentro de casa, conviveriam o Baianismo Socialista, a Vertente Gauchesca, o Fisiologismo Marxista e outras manifestações autônomas da realidade partidária.

Para isso é necessário mais que a tecnologia petista de disputa interna. É preciso um projeto de poder capaz de unir pela expecativa, como Lula uniu o PT, em sonhos, ao longo de vinte anos difíceis. Esse projeto, como os segredos de Fátima, ainda não se revelou ao mundo.

Ricardo Amaral é repórter da Agência Reuters em Brasília

02.03.2007
Caros amigos e leitores. Vou tirar alguns dias de férias, para recarregar as baterias. Foi um ano duro e estou cansadíssimo. No meu lugar, ficará com vocês o jornalista Ricardo Amaral, atualmente trabalhando na agência Reuters. Amaral, um mineiro que tem mais de 20 anos de Brasília nas costas, é um repórter muito bem informado e um analista político de primeira linha. É tão bom que, no serpentário da capital federal, raramente come gato por lebre. E não perde o bom humor.

Desfrutem.



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