Pancadaria assusta indecisos, campanhas fazem ajustes


10.10.2006


Coluna do iG
As declarações de Lula e de Geraldo Alckmin ontem já tentaram lidar com um problema que começou a ser detectado pelas pesquisas qualitativas realizadas pelas duas campanhas durante o próprio debate da Band: muitos eleitores ficaram chocados com a pancadaria. Não gostaram do que viram e ouviram. Esperavam que os candidatos trocassem acusações e mesmo alguns golpes mais duros, mas não queriam que o debate se reduzisse a isso. Decepcionaram-se com o pouco tempo e empenho dedicados à apresentação, defesa e crítica de propostas de governo.

Não é à toa que ontem, na primeira oportunidade, Lula procurou passar a idéia de que Alckmin foi o responsável pelo tom belicoso do debate. Disse que não se sentiu diante de um candidato, mas de um “delegado de porta de cadeia”. E aproveitou a oportunidade para lembrar que já debateu com mais de uma dúzia de candidatos a presidente, de Collor a Serra, de Ulysses Guimarães a Fernando Henrique, e nunca o clima foi igual ao de domingo.

A estocada obrigou o tucano a reagir imediatamente. Alckmin negou que tivesse sido agressivo no debate. Disse que externou apenas o que estava atravessado na garganta de todo mundo. “Fui apenas um instrumento do povo, mas não com raiva, mas com indignação”, explicou-se.

O fato de que os dois candidatos tenham falado ontem num tom várias oitavas abaixo do usado no domingo é um sinal de que as campanhas captaram claramente a insatisfação de uma parcela do eleitorado com a virulência da guerra de acusações. Essa parcela pode até não ser tão numerosa assim – provavelmente não alcança 10% dos votantes –, mas é decisiva para o desfecho da eleição. E por uma razão muito simples: ela é composta basicamente pelos indecisos e pelos eleitores pouco firmes dos dois candidatos, que ainda podem migrar ou mudar de rumo nas próximas semanas.

Daí os ajustes que serão feitos (e já começaram a ser feitos) nas duas campanhas. Se o pessoal com a faca nos dentes do PSDB e do PFL imagina que Alckmin manterá o tom do último domingo na propaganda eleitoral e nos novos debates, vai se decepcionar. O candidato seguirá batendo na tecla da corrupção, especialmente no caso do dossiê, mas tomando cuidado para não parecer que está querendo driblar a discussão de propostas de governo. Em matéria de estilo, Alckmin tentará encontrar um ponto em que passe a idéia de firmeza, mas não de arrogância. No papel, é fácil; na prática, não é tão simples assim.

Quanto a Lula, sua campanha já fez duas inflexões em função do debate de domingo. No plano simbólico, a ênfase estará em carimbar a idéia de que Alckmin tem o “nariz em pé” e está acostumado a falar “de cima para baixo” com os outros. Em termos de conteúdo, Lula tentará forçar ainda mais a discussão sobre programas de governo, em cima de pontos concretos, buscando vincular Alckmin com posições conservadoras em temas de forte apelo junto à esquerda, como Alca, privatizações, programas sociais etc. Ao fazer esse movimento, evidentemente, Lula está de olho nos eleitores de Heloísa Helena e Cristovam, agora órfãos de candidato, mas quer também obrigar Alckmin a ter de se explicar e de se defender. É a forma que Lula encontrou para não ficar na defensiva.




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