Quem disse que a sociedade estava anestesiada?


20.12.2006


Coluna do iG
A Câmara e o Senado devem aprovar hoje o reajuste dos subsídios dos parlamentares para R$ 16.500. Depois que o Supremo Tribunal Federal decidiu que o aumento exige lei específica votada em plenário, não podendo ser resolvido por ato administrativo dos presidentes das duas casas, a tendência é de que apenas seja reposta a inflação acumulada nos últimos quatro anos. O mais provável é que o reajuste de 91% sequer seja levado a voto.

Se essa previsão se confirmar, a opinião pública, em apenas cinco dias, de forma fulminante e avassaladora, terá obrigado o Congresso a recuar de uma decisão que contava com o apoio quase unânime da elite parlamentar e do baixo clero. Ou seja, o episódio desmentiria duas avaliações que vêm sendo apresentadas como a quinta essência da verdade depois da crise do mensalão. A primeira delas apregoa que a opinião pública estaria anestesiada pelos recentes escândalos, engolindo sem reação qualquer patifaria ou malandragem dos políticos. A segunda proclama que o Congresso, de tanto pecar, estaria blindado às pressões da mídia e da sociedade.

Os últimos cinco dias mostraram que nenhuma das duas assertivas anteriores está correta. Não só a sociedade reagiu com fogo intenso e crescente ao aumento de 91% como o Congresso sentiu rapidamente que estava numa posição insustentável. Ou seja, as teses do anestesiamento da opinião pública e da blindagem do Congresso foram reduzidas a cinzas.

Por que a sociedade reagiu de forma tão distinta na crise do mensalão e no episódio dos supersalários? No primeiro caso, ela se dividiu. No segundo, ela se uniu. No mensalão, boa parte da sociedade convenceu-se de que o país estava sendo comandado por uma quadrilha de ladrões, em meio ao maior esquema de corrupção sistêmica de sua história. A conseqüência óbvia desse raciocínio é de que era necessário tirar Lula da Presidência da República, de uma forma ou de outra.

Outra parte da sociedade, tão expressiva como a primeira, acabou firmando uma convicção oposta: embora o PT tivesse cometido erros gravíssimos e mesmo crimes, a oposição estava maximizando intencionalmente as denúncias, com o objetivo de atingir Lula e voltar ao poder.

Ou seja, o comportamento da sociedade durante a crise foi marcado pela divisão política e, mais tarde, eleitoral. A campanha para presidente apenas deu ares institucionais a esse duríssimo enfrentamento, que atravessou a sociedade de cima a baixo e de lado a lado.

Os políticos, que são mestres na arte de farejar para onde os ventos estão soprando, captaram logo a situação de relativo equilíbrio na sociedade, a partir do final de 2005 e início de 2006. E aproveitaram o clima de confusão e de empate político na sociedade para fazer o que bem entendiam nas votações dos processos de cassação.

A situação política agora, no entanto, é outra. Mal ou bem, os resultados das eleições para presidente criaram um novo momento, pondo um fim ao clima de exasperação dos 18 meses anteriores. De uma certa forma, o país sossegou e as feridas começaram a cicatrizar.

Aí veio o aumento de 91% dos parlamentares. Ele foi tão acintoso que permitiu uma reação quase unânime da opinião pública, botando no mesmo bloco pessoas e setores que estavam em campos opostos há pouco tempo. Daí sua força, sua rapidez, seu caráter de rastilho que incendeia muitos palheiros simultaneamente. Daí seu sucesso.

A opinião pública está viva e ligada, mas, como em qualquer lugar do mundo, ela é fruto da luta política. Quando se unifica em torno de uma idéia e mostra constância nessa unidade, é um fator político de primeira grandeza. Quando se divide e mostra volubilidade, pesa pouco e anula-se. Para alguns, os que só vêem o que está na superfície, chega a parecer anestesiada. Até que se una novamente em torno de algo que faz sentido para todo mundo ou quase todo mundo, e não só para uma parte da sociedade.



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