Olha o pingo


1930


Autor: Hekel Tavares e Joracy Camargo
Intérprete: Januário de Oliveira
Gênero: Embolada
Gravadora: Columbia


O personagem da música é Getúlio Vargas. A embolada, gravada um mês antes das eleições de março de 1930, brinca com o desespero que teria tomado conta do candidato da Aliança Liberal quando foi se dando conta de que a derrota nas urnas era certa. Dos 20 estados brasileiros à época, apenas a Paraíba e Minas Gerais, presidida por Antônio Carlos de Andrada, o “seu” Toninho Anacreonte, além do Rio Grande do Sul, ficaram a seu lado.

Antonio Carlos, que pretendia ser o sucessor de Washington Luís, o “compadre Roxingtão”, não aceitou passivamente o rompimento da política do “café com leite”, que dava direito a Minas Gerias a indicar o novo presidente depois de o Palácio do Catete ter sido ocupado por um paulista durante quatro anos. Em represália, lançou a candidatura de Getulio. Mas, sob a pressão de Washington Luís, os demais estados fecharam com “seu” Julinho Prestes, “caboclo valentão”.

A música lembra que Getulio, ao se candidatar a presidente, havia quebrado compromisso assumido anteriormente com Washington Luís de marchar com ele na sucessão presidencial.Vale lembrar que Hekel Tavares era partidário da candidatura de Julio Prestes. Chegou a assinar manifesto de apoio ao candidato governista.

Como os fatos posteriores se encarregariam de demonstrar, Getulio não estava tão desesperado assim. Meses depois, o Rio Grande do Sul levantou-se em armas, recebeu apoio em outros estados e a República Velha caiu. Roxingtão e o caboclo valentão foram exilados.

“Olha o pingo, sinhá, olha o pingo, sinhá,
Olha o pingo, pega o laço pra laçar (bis)

Foi inda ontem
Que lá de Belo Horizonte
Seu Toninho Anacreonte
Me chamou pra governar
Todo acanhado
Respondi: “Tá combinado,
Que daqui mais um bocado
No Catete vou morar”

Olha o pingo, sinhá, olha o pingo, sinhá,
Olha o pingo, sinhá, pega o laço pra laçar (bis)

Servi à beça
Pra ser deputado avessa.
Que eu já tinha uma promessa
Com o compadre Roxingtão
Então por isso
De quebrar um compromisso
Houve bruto rebuliço
Que eu inté fiquei na mão

Olha o pingo, sinhá, olha o pingo, sinhá,
Olha o pingo, pega o laço pra laçar

Eu tava atente
Que pra “serse” presidente
Era só ficar contente
E esperar as eleição
Mas não é sopa
É preciso boas rôpas
Viajar pulas Óropas
Pra servir sua nação

Olha o pingo, sinhá, olha o pingo, sinhá,
Olha o pingo, pega o laço pra laçar

Mas seu Toninho
Me deixou aqui sózinho
Vou lutar com seu Julinho
Que é caboclo valentão ?
Dos otro estados
Que ficaram indignados
Um ficou do nosso lado
Mas o resto num qué, não

Olha o pingo, sinhá, olha o pingo, sinhá,
Olha o pingo, pega o laço pra laçar

Lá vai eu agora
Sem dormir horas e horas
Sem saber se vô simbora
Ou se fico aqui à toa
Ele se esconde
Já desarriô do bonde
Vai fugí num sei prá onde
Com um tá João Pessoa

Olha o pingo, sinhá, olha o pingo, sinhá,
Olha o pingo, pega o laço pra laçar

Padre Virgílio (?)
Tô ficando burrecido
E inté desiludido
Com tanta desilusão
Mas não é Júlio
Que eu não quero ser Getulio
Escapando desse embrulho
Nunca mais vou no arrastão

Olha o pingo, sinhá, olha o pingo, sinhá,
Olha o pingo, pega o laço pra laçar”



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