Saio de férias. Com vocês, Ricardo Amaral


02.03.2007


Coluna do iG
Caros amigos e leitores. Vou tirar alguns dias de férias, para recarregar as baterias. Foi um ano duro e estou cansadíssimo. No meu lugar, ficará com vocês o jornalista Ricardo Amaral, atualmente trabalhando na agência Reuters. Amaral, um mineiro que tem mais de 20 anos de Brasília nas costas, é um repórter muito bem informado e um analista político de primeira linha. É tão bom que, no serpentário da capital federal, raramente come gato por lebre. E não perde o bom humor.

Desfrutem.

Blindados e alinhados

Por Ricardo Amaral
Em novembro do ano passado, logo depois da reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva renovou o contrato da equipe econômica, a mesma que ele disse ontem estar “blindada pelo sucesso”. Faltou dizer que ela está blindada pelo alinhamento com a política ditada pelo Planalto.

Parte do novo contrato está sendo cumprida com a substituição do diretor de Política Econômica do Banco Central, Afonso Belivacqua, anunciada horas depois da entrevista de em que Lula garantiu a permanência da equipe econômica, incluindo, supostamente, o presidente do BC, Henrique Meirelles.

Os sinais da mudança na direção do BC foram transmitidos com antecedência por Lula aos dirigentes políticos aliados, especialmente à direção do PT. Desde novembro, só os distraídos e os recalcitrantes insistiram na palavra de ordem “fora Meirelles”.

O acerto com o presidente do Banco Central foi feito na base do “você continua, para fazer a minha polïtica”, como explicou em novembro um dos poucos interlocutores de Lula em matérias de alta sensibilidade.

Para Lula, o sucesso da equipe reside nos resultados da inflação em queda, das reservas internacionais em alta, da diminuição do peso da dívida sobre o total do PIB e da trajetória constante de queda nas taxas de juros.

O fracasso, obviamente, traduz-se nos indicadores escandalosamente tímidos do crescimento do PIB.

A cláusula de permanência, no caso de Meirelles, é manter bem aceso o sinal de que os juros continuarão caindo para a economia crescer, no embalo do plano de investimentos em infra-estrutura que Lula exigiu imediatamente depois de renovar com a equipe econômica.

Em 24 de janeiro, dois dias depois do anúncio do PAC, o Comitê de Política Monetária, dividido, fez um corte tímido na taxa Selic, prevendo que o aumento dos investimentos públicos poderia resultar em pressão inflacionaria no futuro.

A ata do Copom de janeiro foi, de certa forma, um certificado de que o PAC pode dar certo e mudar a curva do PIB, como deseja o governo.

Foi também um aviso de que setores muito influentes no comitê condenam esse movimento, pelo menos enquanto a relação dívida/PIB não cair bem abaixo dos níveis atuais, próximos a 50%.

Lula reagiu dizendo que “o Brasil não pode ter medo de crescer”. Em seguida, autorizou uma condenaçào “enfática” do PT ao “conservadorismo” da decisão do Copom, desde que não fosse uma crítica geral à políitica monetária.

Por fim, o presidente espicaçou os ortodoxos com a nomeação do economista Paulo Nogueira Batista Júnior para uma diretoria cativa do Brasil no FMI.

O Copom de janeiro pode ter sido o último suspiro dos que, na equipe econômica e fora dela, resistem ao crescimento impulsionado pelo gasto público. É no que Lula acredita, a ponto de ter oferecido sua armadura política para blindar Meirelles.

Ricardo Amaral é repórter da Agência Reuters em Brasília




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